quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Cão de rua

Tô querendo um cachorro. Mesmo trabalhando muito e sendo muito bem acolhida, sinto um apertinho quando chego em casa e sou eu comigo. Cuido da minha horta e das minhas coisas, mas falta um cachorro. Avisei muita gente que tô querendo um. Ontem ao voltar do almoço, encontrei esse Bob Marley na porta do PSF. Disse à Mariana que se ele ainda estivesse na porta quando eu saísse, iria pegar. Imundo,manso, com mais carrapicho que pêlo, ficou acomodado tomando sol na nossa porta. Mariana duvidou e no meio da tarde me disse: 'Marcella, cê tá perdida, seu cachorro continua lá.' E continuou... Mariana morria de rir e me arrumou uma caixa e carona. Deixei todos meus colegas de trabalho morrendo de rir e trouxe o dog de carro. Comecei o banho, pacientemente. Escorreu barro puro quando o molhei. Fui adulando, tirando os carrapichos e carrapatos aos poucos... Gastei duas horas até resolver que estava bom. E ainda sobraram uns carrapichos. Ele paciente, manso, magrinho, até tremeu de frio,sem reclamar. Comeu da ração mais barata como se fosse filé. Hoje pela manhã, fez a maior festa quando acordei e abri a porta pra ele. Passei o dia pensando se o encontraria quando chegasse do serviço, não quis prendê-lo porque é um cão de rua, adulto, acostumado com espaço. E não dei nome porque não sabia se seria meu mesmo. Pois é, o dog fugiu... Pelo menos o deixei limpinho e alimentado! E caso alguém o encontre, cuida bem dele! *****Um dia depois, o dog apareceu no PSF, disse seu oi canino e saiu para brincar de novo!****

terça-feira, 24 de setembro de 2013

No hospital

Mesmo plantões de urgências rendem risadas - e choros... Atendendo um paciente psiquiátrico... -Quantos anos o senhor tem? Desafiador, respondeu: -Acho que tenho idade para ser seu pai. Eu na paciência que uma consulta de madrugada traz: 'E eu acho que o senhor não é.' __________________________________________________________________________________________________ Em outra consulta, conduzi o paciente para dentro da sala e me apresentei: "Boa noite, meu nome é Marcella, sou a médica de plantão." "Boa noite, meu nome é Fulano, sou o doente." =)

domingo, 22 de setembro de 2013

Quando o paciente diz não

Atendendo idosos, o mais comum é que encontrar pacientes que apresentem alguma doença crônica. Para fazer controle, sempre peço aos meus pacientes que tragam seus exames antigos para comparação. Numa dessas consultas, atendi o Seu Fulano. 80 anos com vigor de 50, alto e forte como um touro, veio até mim para controle de hipertensão. Pressão quase nos valores normais, pedi que voltasse com toooodos exames antigos. Voltou uma semana depois, no melhor humor que existe. Fui passando os exames, papéis amarelados desde 1996. Quase tudo normal, nada que me preocupasse, até que vi um exame de 2008, de próstata. A avaliação da próstata pelo exame de sangue é controversa, porque o exame pode vir normal mesmo em casos de câncer. Porém, seu Fulano tinha o exame aumentado em quase 40 vezes o limite do normal! Fui questionar... -E esse exame de próstata do senhor, tem outros? -Ah, doutora, esse exame eu não faço mais não. -Mas porquê? -Olha, foi o seguinte: quiseram me operar de próstata uns cinco anos atrás, eu me preparei e tudo, fiz os exames pra cirurgia. Mas um dia eu estava andando na rua e Deus me disse que se eu fosse operar, não voltava mais. Larguei isso de lado e tô aqui até hoje. Continuei a consulta sem questionar, é muito interessante quando o paciente recusa um tratamento, independente do motivo. Nesse caso, seu Fulano foi tão incisivo que não tocarei mais no assunto. O paciente merece ser respeitado em suas escolhas. Claro, devo orientar, explicar os riscos, mas quem deve direcionar o cuidado é o paciente, de acordo com sua realidade, suas crenças e suas expectativas. Presenciei no HC alguns pacientes recusando quimioterapia, recusando cirurgias, recusando atendimento. Saude é um estado de bem-estar e não apenas a ausência de doença. Quem sou eu para contrariar os 80 anos de vida e a fé de Seu Fulano?

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Visita ilustre

Os dias vão se passando e a gente diminui a capacidade de se encantar com os pequenos milagres de cada dia... Hoje foi um dia cheio, tivemos um feriado e eu sabia que seriam muitos atendimentos. Apesar de atendermos com hora marcada, o saguão do posto ficou cheio, e o balcão com uma pilha de prontuários esperando por mim. Antes de chamar o paciente, eu reviso os atendimentos, vejo as pendências da última consulta e me preparo mentalmente para as prioridades de cada caso. Costumo ter uma cabeça ruim, mas sempre lembro de cada paciente ao ver o prontuário. Num dos atendimentos, recebi a visita ilustre de uma paciente com mobilidade reduzida! Fiz uma visita a ela há algum tempo, ajustei a medicação e pedi exames. A paciente era idosa, tinha sequela de derrame e dificuldade de andar, mas resolveu ir com a filha levar os resultados para me mostrar! Cheirosinha, roupa colorida, sapatilha bordada, unha feita e sorriso fácil... Em momentos assim eu me sinto valorizada, estimulada, e percebo o quanto é delicioso ser médica!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Ah...o amor!

Atendi hoje uma paciente que acompanho desde o ano passado. Obesa, com dificuldade de andar, diabetes e pressão alta. Paciente complicada, quase 80 anos, deu trabalho para mim e a Lidiane porque não queria tomar as medicações, não queria viver. Viúva e sem filhos, sofria saudades há três anos. Hoje apareceu de cabelo pintado, roupa colorida e brincos. Fiz a consulta normalmente e a elogiei. 'Mas a senhora tá muito bonita!' Sorriu com os olhos, boca e alma: 'Tô namorando, doutora! E ele é lindo como uma gota de orvalho numa folha verde.' Obrigada por essa ternurinha...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Perolinhas

Ostra feliz não faz pérola, como diz Rubem Alves. Trabalhar no PSF é complicado, mas nos rende caaada história! Algumas que marcaram :

"-O senhor tem algum outro problema de  saúde?
  -Não fia, sempre fui sadio. Agora que arranjei essa macacoada toda."

"-Doutora, quero fazer um ultrassom do estambo. Me pediram endoscopia, mas esse exame eu num faço.
-Dona Fulana, não existe ultrassom do estômago, a gente faz é endoscopia mesmo.
-Aaaah, inziste sim porque minha vizinha fez.
Depois do exame, percebi que a paciente tinha algumas alterações abdominais e eu realmente teria de pedir ultrassom.
-Oh Dona Fulana, vamos fazer ultrassom da barriga toda que a gente aproveita e vê o estômago!"

"No grupo de hipertensos, eu, Mariana e Deise nos dividimos para medir a pressão dos pacientes. Dispenso um paciente e chamo a  Dona Fulana.
-Não me sento na mesma cadeira que Seu Fulano.
-Mas por quê, Dona Fulana?
-Seu fulano é morfético.
Eu que não tinha a menor idéia do que se tratava e tinha pedido a outros dez pacientes que se sentassem ali, respondi:
-Pode se sentar, Dona Fulana, que isso não se pega assim."  Depois descobri que morfético é o paciente com hanseniase. E realmente não se pega assim.

"-Dona Fulana, a tosse da senhora é seca?
  -Nããão, tô despeitorando muito!"

Vou  dividindo essas perolinhas com que Dona Fulana e Seu Fulano me presenteiam...