quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Vitaminas

Todos os dias atendo ao menos um paciente queixando fraqueza, desânimo, dificuldade para emagrecer... E em algum momento, ouço a frase: ‘Acho que estou precisando de vitaminas, a senhora pode me passar?’. Então, Fulano, o senhor faz exercício? Não, não tenho tempo, trabalho muito. O senhor se alimenta bem? Assim, como frituras, não como feijão, não gosto de verdura, adoro refrigerantes... Quantas horas o senhor dorme por noite? Umas seis, doutora. O senhor faz algo para se divertir? Quase nada, não tenho tempo. Como é sua relação em casa? Mais ou menos... Brigo muito com minha esposa, meu filho usa drogas... O senhor fuma, bebe? Bebo nos fins de semana. Fumar eu fumo, mas paieiro. E assim vão diversas consultas. Pessoas querendo responsabilizar algo pelo seu mal estar, acreditando que um remédio vai mudar sua vida. Que existe fórmula mágica para consertar maus hábitos. Que o médico tem poder para consertar tudo. E essa mentalidade é tão disseminada que é difícil um paciente iniciar exercício, buscar atividades de lazer, aceitar fazer terapia, melhorar seus hábitos alimentares... Espero não me cansar de pedir às pessoas que cuidem melhor de si... E não, ainda não passei vitaminas a ninguém.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Filme triste

Fico evitando falar sobre coisas tristes no blog- e na vida, mas a verdade é que todos os dias vejo realidades tristes. Não digo chocantes porque quase não me espanto mais- vocês imaginam as barbaridades que a gente acostumou a achar normal. O caso da dona Fulana não é normal. Conheci-a no dia em que comecei a trabalhar. 84 anos, mora sozinha, rotulada como 'paciente chata'. Cada profissional acha seus pacientes chatos por um motivo. Dona Fulana mora perto do posto e vai frequentemente, sem agendar, pedir consulta. Invariavelmente, queixa fraqueza, quer tomar soro e vitaminas. Trata mal toda a equipe, exceto a agente da sua área, a quem ela incomoda bastante, sempre reclamando a mesma coisa e solicitando visitas. Na primeira vez, atendi-a sem marcar, pelo fato de ser idosa, com queixa de fraqueza. Consulta complicada. Reclamava de tudo, dos nove filhos que não a ajudam, dos vizinhos, de Deus e do diabo. Coluna encurvada, magrinha, mas sem nada aparente que me preocupasse. Pedi alguns exames, marquei retorno e me recusei a fazer o soro que ela pediu. Dona Fulana não veio no retorno. Alguns dias depois, mandou os exames para eu avaliar. Tudo normal! Na outra semana, a Tati (agente) me pediu que fosse até a cada dela para examiná-la. Eu não podia naquele momento e pedi à Mariana que fosse. Mariana foi e voltou contrariada: 'Um dia dona Fulana vai morrer de verdade e não vamos saber, ela vive fazendo manha.' Dona Fulana apareceu logo pedindo que eu a avaliasse, que estava fraca. Com o posto cheio e preguiça pelo seu histórico, orientei-a a buscar o hospital ou agendar uma consulta. Ela passou mais de uma hora brigando na recepção e falando sozinha: 'Aaaai que saudades do Doutor Paulo!'. Hoje, Tati estava esgotada. 'Marcella, passei a manhã na casa da dona Fulana, não sei o que faço. Ela reclama com os vizinhos e eles vem me procurar. Outro dia uma vizinha dela veio na minha casa dez da noite.' Resolvi ligar para a assistência social. Dona Fulana é um problema antigo no bairro. Brigou com os familiares e recusa cuidadores. Como se não bastasse, sustenta um filho drogadito. Segundo a assistente social, ela passa fome em casa e vem ao posto pedir soro para melhorar a fraqueza. Fiquei extremamente triste ao saber disso. Não vejo ferramentas para ajudar que não seja contar com a assistência social. Vou percebendo que absurdos assim existem aos montes, a gente que vai se escondendo deles.

domingo, 13 de outubro de 2013

Nova amiga

Fico ligeiramente triste com uma mania dos pais quando estou perto de uma criança: 'olha, ela é médica, se você não ficar boazinha vai te dar injeção!'. Poxa vida, nunca dei injeção em criança... Nisso, os pequenos nem chegam perto de mim, e eu perco momentos incríveis. Fico imaginando que eles devam imaginar que eu carrego agulhas na bolsa e estou pronta para atacar a qualquer momento. Tenho um amigo que ameaça sua sobrinha toda vez que os vejo. E como os vejo frequentemente, Luisa sempre manteve uma distância segura de mim. Hoje fomos passear na roça desse amigo e Luisa estava. Com seus três anos e memória de criança, não sentiu perigo em mim. Como toda criança, veio contar seus casos, brincar, pedir a mão para atravessar...um doce! Fofa, quando quer alguma coisa, diz 'eu preciso', e ficava repetindo que precisava nadar na piscina (como ela chama a represa). Ao final do dia, sua mãe prometeu que a levaria para tomar sorvete. Fizeram um acordo entre elas e Luisa veio falar comigo: 'Você precisa tomar banho para ir tomar sorvete.' Entendi que esse era o combinado entre ela e a mãe e que eu tive a honra de ser convidada. 'Ah, então também posso ir?' 'Pode, mas você tem de tomar banho antes de ir pra sorveteria.' 'Tudo bem, Luisa! Onde fica a sorveteria?' Luisa pensou um pouco e respondeu: 'é onde tem um monte de sorvete!' =)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

'Boto ele no colo, prêle me ninar...'

Alguns pacientes aparecem fora de hora querendo consultar. Quando conseguimos, encaixamos o paciente. Numa dessas, apareceu seu Fulano,70 anos, raizeiro do maior conhecimento, querendo 'dar uma palavrinha comigo'. Como estava folgada, o convidei para entrar no consultório. 'Doutora, vim mostrar para a senhora um negoço que saiu do meu ouvido, não sei o que é.' Abriu o bolso da camisa social e tirou um embrulhinho num saco. Desdobrou delicadamente o papel e me mostrou o ovni: uma bola de cera de alguns milímetros. Expliquei o que era e disse que podia jogar fora. 'Eu não...Vai que fizeram alguma macumba!' E foi me explicando que tinha de queimar a pedra para desfazer a macumba. Foi explicando, contando seus casos e rindo, quando parou no meio de uma frase e olhou para mim: 'Mas você emagreceu!! Tá comendo direito? Dormindo? Descansando?' E foi me dando bronca até balançar a cabeça 'Vocês médicos esquecem de se cuidar...tsc tsc'. Foi embora me fazendo jurar que eu iria tomar chá de quebra-pedra e visitá-lo qualquer dia desses.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Renovação de receitas

    Antes de começar a trabalhar, tive uma conversa com a enfermeira do PSF sobre como eu gostaria de trabalhar. Não podia nem queria impor nada, mas uma coisa era fundamental: não queria renovar receitas sem ver o paciente. Mariana concordou de imediato e acordamos assim: seriam agendadas consultas sempre que o paciente precisasse de medicação, exceto nos casos de pacientes em acompanhamento por outros médicos.
    Segundo o Conselho Regional de Medicina, o médico não pode renovar receita sem examinar o paciente, embora o CRM também admita que tal definição nem sempre consegue ser cumprida, a demanda nos PSFs costuma ser maior que os médicos conseguem cumprir. Na realidade, o mais comum é: os pacientes não tem paciência para aguardar as consultas e os médicos não tem paciência com os pacientes. Mais simples copiar um papel que cuidar de uma pessoa.
    Desafio à frente e com o apoio dos meus colegas, fomos! Os pacientes ficam irritados sempre que descobrem que não vão mais poder ir no posto apenas duas vezes ao ano 'buscar' suas medicações. Ritinha e Mariana têm sofrido com a insistência dos pacientes: 'não pode, tem de agendar...' 'Agora têm disso?!?' 
    Muitas vezes fiquei com o coração apertado de ver meus pacientes nervosos e meus colegas de trabalho sendo pressionados. Pensei em mudar de idéia, mas... A cada consulta 'apenas' para renovar receitas antigas, vou descobrindo pequenos e grandes problemas: pacientes descompensados, dependência de medicação para dormir, alcoolismo, e claro, doenças que não apareciam simplesmente porque ninguém perguntou.  Obrigada pelo apoio,colegas!!