quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sô Ozoro

    Estava atendendo a um paciente chamado Osório. Uma figura: baixo, bigodudo, sorrisão simples. Veio aos quase setenta anos para investigar uma hipertensão e tomar os remédios que "a senhora acordar comigo". Consulta deliciosa, entremeada de pequenos casos de quem viveu 'tudo quanto há'. Eu ia conversando com ele e pensando por qual motivo o nome dele me soava tão familiar.
    Sô Ozoro pra todo lado... De onde conheço esse nome?
    Ao final do exame, sento Sô Ozoro na maca: 'Aaaaah, o nome do senhor é igual ao do moço que escreveu o hino brasileiro!'. Sô Ozoro me olha de lado e sorri, também de lado: 'Pois é, dotôra. Quando eu era menino, na escola, ouvia o hino, pensava que era pra mim e ficava tooodo contente.' Fechou os olhos e gargalhou. Também gargalhei, pensando numa criança de bigode ouvindo o Hino Nacional.

(O paciente me autorizou a contar essa história.)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Nota vermelha

Breve preâmbulo: Diz-se que batimentos do coração são regulares ou irregulares. Quando são irregulares, o paciente tem arritmia. Paciente hipertensa retornou para me mostrar resultado de exames. Me entrega um envelope lacrado, sinal de que eu era a primeira pessoa a ver esses exames. Abri o envelope, analisei os exames um por um, fui anotando os resultados e devolvendo à paciente. Por sua vez, ela recebia os exames , colocava óculos e também os lia, aguardando que eu os interpretasse. -Dona Fulana, os exames da senhora estão ótimos! (e fui tranqüilizando sobre o resultado de cada um). -Peraí doutora... Olha aqui esse eletro... (eletrocardiograma) Pensei que tivesse deixado passar algo e peguei o papel que ela me estendia. -Normal. Não precisa preocupar. Ela franziu a sobrancelha, preocupadíssima: ‘Normal não, doutora, olha de novo, aqui diz RITMO CARDIACO REGULAR’. -Qual o problema, dona Fulana? -Uai doutora... Eu me cuido tão bem... Esperava um ritmo cardíaco bom ou ótimo! (Como nunca pensei nisso?!)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Dose dupla

Semana passada, atendi uma mulher de trinta e poucos anos. 'Boa tarde, dona Fulana, como posso ajudar a senhora?' 'Vim consultar porque estou grávida.' Eu não me contenho nessas horas: 'Mas que coisa boa!!'. Dona Fulana abaixou a cabeça : 'Coisa boa? Só se for para você.' Pedi desculpas e ela me explicou melhor que tem dois filhos grandes e não pretendia engravidar de novo, mas que se acostumaria. Examinei, orientei, pedi os exames de pré-natal e marquei retorno para o mês seguinte. Decidi que de uma outra vez, perguntaria à futura mãe antes de parabenizar. ... Ontem era dia do grupo de gestantes. A dona Fulana veio falar comigo com os olhos radiantes: 'Doutora, tenho uma surpresa pra senhora.' Aqui em Morada não existe surpresa, eu sabia do que se tratava e pedi para ela entrar na minha sala. 'São gêmeos!!! Eu não tô querendo acreditar, não tem ninguém na família, meu marido ficou tão satisfeito!!!' E exclamava, e sorria, e agitava as mãos. Me pediu para conferir o exame e disse que vai acreditar quando houver outro exame confirmando. De repente, parou de falar como se preparasse uma conclusão muito sábia: 'Agora que são dois estou feliz.' Então tudo bem=) Parabéns!!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Primeiro plantão

     Como todo médico que trabalha no interior, fui convidada a ajudar na escala de plantões do Hospital São Sebastião. Alguns médicos tem dado plantões seguidos e tem ficado muito sobrecarregados. Concordei em fazer o plantão do  último domingo. Aceitei com um medo enorme dos casos que poderiam surgir, somados a minha inexperiência. Combinei com um dos médicos daqui que ligaria para ele no caso de qualquer dificuldade, e deixei meus amigos de faculdade avisados a me ajudar via celular também.
     Cheguei ao hospital e fui recebida por uma equipe mais que conhecida e querida: Jordania, Aparecida, Viviane, Pretinha... Delícia trabalhar assim! Os pacientes não pararam de chegar, mas casos sem maior gravidade, que pude manejar tranquila.
     Perto das sete da noite, eu pensava se daria tempo de assistir a missa quando me perguntaram quem viria assumir o plantão noturno. 'Hmm, não sei!'. Acabei descobrindo que o plantão noturno também era meu! Que susto! Eu tinha de estar no PSF às sete, não havia levado roupa para trocar nem lanches. Tudo bem, se era assim não adiantava eu ficar achando ruim. Booora para mais doze horas com outra equipe, também muito especial: Dalcira, Izilene e Helinea. Plantão noturno movimentado, com direito a gestante em trabalho de parto prematuro e mãe de paciente tratando equipe com falta de respeito.
     No meio da noite, fui chamada para atender uma paciente com dor de pedra na vesicula. Fizemos um Buscopan. Em minutos, a paciente estava sem dor e feliz. Me abraçou com tanto carinho... Urgência tem sua graça. No PSF  ninguém sai tão feliz da consulta quando controlo uma hipertensão.     

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Dia de visita

Semana cheia no PSF. Aos poucos, as coisas vão se ajeitando, as ‘novas’ caras vão ficando conhecidas e começo a criar uma rotina. Hoje foi dia de visita domiciliar. A visita é uma ferramenta do Programa de Saúde da Família para dar assistência aos pacientes que não conseguem se deslocar até o Centro de Saúde. Na maior parte, são pacientes idosos acamados ou com mobilidade reduzida. Para o médico, é uma oportunidade única de conhecer as condições de vida de seus pacientes. Como fiz visitas durante a faculdade, sabia que seria um momento delicioso para mim, de maior intimidade com os pacientes e suas famílias. Começamos a tarde errando a casa e pedindo desculpas... Pude observar o quanto são comuns as casas de quintal de terra batida e sem acabamento. Meus pacientes, para minha grande alegria, eram muito bem cuidados, independentemente das condições econômicas. Numa das casas, fui lavar as mãos e descobri um banheiro caprichosamente adaptado à paciente. A casa era simples, ainda em construção, mas fizeram o vaso do banheiro mais alto, forrado, e com barras laterais para facilitar para a paciente. Fiquei encantada! Tão raro ver pessoas se lembrando de adaptar a casa para o idoso... Preservar a independência do idoso é gratificante! Em outra casa, tive outro momento delicioso. Ao examinar o paciente, um dos passos é auscultar os batimentos do coração. Esse processo é feito em quatro pontos: um à direita e três à esquerda, no tórax. Avisei a uma paciente de 79 anos que eu ia ‘escutar’ o coração dela, e automaticamente coloquei meu esteto no lado direito. Ela riu inocentemente e abanou a cabeça: ‘Mas filha... o coração é do outro lado!’.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Voltando pra Morada

Pediram-me um diário da minha vida aqui em Morada. Deliciosamente, diversos amigos vêm me cobrado que eu escreva no blog. Os últimos meses de faculdade ocuparam meus pensamentos de tal forma que nem cartão de aniversário escrevi. Agora já instalada e com todo o tempo que uma cidade pequena oferece, posso escrever. Quando me formei, o parabéns mais bonito veio de um amigo: ‘Obrigado por se formar, estamos precisando de médicos como você’. Agradeci em seco, julgando o elogio o mais superlativo que alguém poderia oferecer. Chegando aqui, ouvi agradecimentos por ter vindo e novamente abaixo a cabeça. Saber que as pessoas pensam assim de você é uma grande responsabilidade. Encontrei Morada Nova como a deixei, seis meses atrás. A sensação agora é outra. Lembro de uma frase do Mandela: ‘Nada como voltar a um lugar que continua igual para perceber o quanto mudamos’. Não adquiri nenhum superpoder, não! De repente, não sinto mais a leveza de ser estudante, de poder gastar a tarde na praça tomando um picolé de milho, de sujar o pé de terra, de curtir o arrocha daqui, de rir alto, de gastar vinte minutos de uma consulta discutindo o quê a pessoa planta em seu quintal. As pessoas me tratam de forma mais formal e em seus olhares, vejo curiosidade, expectativa. Gostaria de saber o que cada um pensa quando me deseja boa sorte... Amigos me param na rua ‘não acreditei que você vinha!’ Estou muito feliz. Voltando para casa, de certa maneira.