segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Todo carnaval tem seu fim

Num misto de tristeza, alívio e curiosidade estou terminando essa etapa aqui em Morada. Foram seis meses lindos, de grandes vivências e aprendizados. Eu brincava dizendo que estava matando um leão por dia nesse inicio de carreira. Enfrentando um sistema de saúde ainda bruto e desigual, doenças crônicas dos indivíduos e da sociedade, distância da família... Foi tudo me consumindo sem que eu percebesse. Quando dei por mim, não sentia mais que pudesse mudar algo. Me sinto apenas colocando o sistema para funcionar, fazendo uma medicina arroz com feijão (sendo que o que eu queria era uma boa costelinha de porco com angu e couve). Decidi ir embora e me preparar mais. Tudo que vivi aqui foi valioso, especialmente as experiências difíceis. Amadureci muito. Agradeço a população da Varginha, que me acolheu com um carinho muito maior que mereço. Aprendi muito com vocês. À toda equipe do PSF, todos vocês são absolutamente e estrondorosamente INCRIVEIS. Pessoas incríveis, dedicadas e capazes. Nunca tinha visto uma equipe tão entrosada. Minha mais profunda reverência e gratidão aos meses que passamos juntos. Obrigada aos colegas do Hospital São Sebastião pelos plantões. Aos amigos de Morada, vou morrer de saudades! O rio São Francisco divide minha vida a cada curva...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Vendendo balões

Eu devia escrever algo sobre minhas decepções com o SUS e com o ser humano (inclusive eu), mas não criei o blog pra isso. Contar um casinho. Atender crianças é tarefa árdua. Não apenas quando são muito pequenos e não sabem falar o que sentem, é sempre um desafio lidar com os pais e avós, que por tanto amor e cuidado acabam por vezes dificultando o trabalho do profissional de saúde. Eu pensei em ser pediatra algumas vezes ao longo da faculdade. Desisti depois da segunda ou terceira mãe ansiosa, querendo antibiótico ou pedido de exames pro seu filho ‘amuadinho’. As crianças são seres mágicos. Um de seus super poderes é estar prostrado em casa e ao chegar no hospital, melhorar de uma vez. ‘Mas doutor, quando eu chegar em casa a febre vai voltar...’. Pode conferir com qualquer mãe, a maior parte das crianças melhora antes de chegar no hospital. Enfim, aqui temos (agradeço todos os dias por isso) a Dra. Tânia, pediatra, e eu quase não atendo crianças. Numa semana em que ela estava de férias, me surge o pequeno Pedro, de quatro anos. Lindo de viver, Pedro dispensou a ajuda da mãe para me contar tudo que sentia. Uma dorzinha no meio da barriga, nada a ver com alimentação, sem problemas para fazer cocô. Deixou ser examinado sem reclamar, aceitando a consulta como um rapaz. Fiquei encantada e o elogiei muito! Ao sair, ganhei um aperto de mão desajeitado. Antes de passar pela porta, Pedro ainda virou: ‘Aqui você também vende balão?’. Dando trela para o moço: ‘Ih, Pedro, eu tinha mas acabou ontem. Confere na padaria.’Assentiu: ‘Vamos,mãe?’ Saiu levando a mãe gentilmente pela mão.