segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Serviço de escrever
Semana passada recebi visitas que encheram minha casa de luz e alegria. Vieram minha irmã, uma amiga e um primo. Meu primo quer ser médico e veio para acompanhar um pouquinho da vida de médico do interior.
Levei-o para conhecer alguns locais e atividades. Um local foi a Vila Vicentina, que é nosso asilo. Conversamos um pouco com cada um dos avôs e acabamos prolongando nossa visita ao Vô Geraldin, uma fofura de 93 anos. Nos contava um pouco sobre a vida no asilo, o que gosta de comer, seus casos... Quando percebi, era hora de voltar ao PSF. "Seu Geraldin, o senhor me dê licença que preciso voltar ao servico." "Espera! A senhora trabalha com serviço braçal ou serviço de escrever? Porque serviço braçal é muito ruim,filha..." Fiquei surpresa com a praticidade da divisão de profissões: "Serviço de escrever mesmo." "E me diz uma coisa: a senhora ganha bem?" "Hmm, não falta nada lá em casa!" "Mais de um salário?" "Mais, seu Geraldin..." Satisfeito com a resposta, se despediu: "Assim que é bom, minha filha. Que Nosso Senhor te acompanhe!"
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Janeirite
Acompanho uma paciente desde agosto. Idosinha, mãe e avó, quase 70 anos, ainda trabalha para ajudar na renda familiar. Diversos pequenos problemas de saúde , desde a primeira consulta vem me queixando cansaço. Após investigar o contexto familiar, investiguei problemas de coração. Não era. Investiguei anemia e tireóide, não era. Investiguei pulmão, não era. Fui mexer nas medicações em uso, quando a paciente sabiamente me sugeriu um diagnóstico: 'Ah nem doutora. Fiz tanto exame. Será que não é janeirite?'. Estranhei: 'O quê, dona Fulana?'. 'A senhora sabe... Tenho janeiros demais... E janeirite não tem tratamento!' Rimos juntas...
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Carinho é bom e todo mundo gosta
Sempre ouço o Tutti Maravilha dizer na rádio: "carinho é bom e todo mundo gosta". Não sei se chego a dar metade do carinho que recebo. Hoje foi um dia cheeeio de carinho.
Logo de manhã, um paciente veio me trazer duas tilápias . Sorridente, ficou contrariado pois tinha as conseguido frescas na semana passada,mas eu estava de férias e ele não pôde entregar. Comida para mim é o presente mais carinhoso que existe! Muiiiito obrigada!
Um pouco mais tarde, atendi um adolescente acompanhado pela mãe. Ao final da consulta, orientei o paciente sobre a conduta e chegou aquele momento: 'liberado, qualquer coisas vocês voltam.' A senhora me abriu um sorriso sincero e estendeu a mão : 'parabéns!'. Apertei a mão estendida, agradeci e estranhei: 'por que estou ganhando parabéns'? Não é dia do médico, não é meu aniversário ,não tô grávida, não conquistei nada... Resolvi perguntar. Simples, a senhora me disse: 'Porque você é muito nova e é médica. Deve ter se esforçado e estudado muito para conseguir.' Me emocionei. Não apenas pela singeleza do gesto, mas por ser a primeira vez que minha -pouca- idade foi motivo de reconhecimento e não de desconfiança.
E para terminar esse delicioso dia, minhas cachorras começaram a me ensinar a passear hoje...
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Mas isso aqui meu senhor... não é uma carta de amor!
Um amigo me conta esse caso que se deu dum outro lado de Minas. "Estava atendendo um caso comum: paciente com dor em joelho. Quando peço que ele suba na maca, o cidadão me tira uma coisa do bolso. Adivinhem o que! -Uma flor? Um cachorrinho? Um pacote de maconha? Uma camisinha? Uma carta de amor? Não! Isso... Uma arma calibre 38. Não sabia o que fazer na hora. O moço me explicou que era vigia e tinha porte legal de arma, mas ainda assim terminei a consulta rapidinho..." Ah se a moda pega aqui em Morada!
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Doguinhas
Essa experiência do blog tem sido muito bacana, as pessoas comentam comigo e dão dicas de assuntos que gostariam que eu colocasse aqui (inclusive estou devendo um post sobre o time de vôlei!). O assunto que mais me pedem são minhas dogas. E todos sabem que não me canso de falar disso! Adoro cachorros e sempre quis ter o meu. Conversei com um amigo daqui sobre cães de rua e ele me falou que duas cadelas tinham acabado de parir. Fui com ele conhecê-las e ao chegar na primeira, ela havia acabado de ser atropelada. Havia quebrado a pata traseira e sua filhotinha chorava de desespero ao ver a mãe machucada. Perguntei sobre os irmãos dela, 'morreram todos, acho'. E resolvi que iria acolhê-la. Foi uma novela. Meus vizinhos da pensão não ficaram muito felizes com a filhotinha chorando e tivemos de nos mudar. Males que vem para bem, viemos para uma casa com quintal deliciosa! E eu ia pensando em mil nomes criativos para a pequena(cada vez maior), quando resolvi: ela se chama Doga. Filho sozinho fica triste, né? Lembrei da alegria que senti quando meu irmão mais novo nasceu, e o quanto sermos três irmãos é algo importante... Resolvi adotar mais uma e comuniquei meu amigo. Assim veio a Piaba. Zoiuda e dengosa, conquistou rapidinho o amor da Doga, agora não se separam... As duas eram muito medrosas e chegaram machucadas da vida da rua. Imagino que tenham apanhado muito, pois se escondiam quando chegava visita. Hoje, dois meses depois, são um dengo! Um amor tão diferente, uma alegria tão pronta! Fico igual criança esperando a hora de vir para casa e ficar com elas. E a vida de dono de cachorro é diferente. Agora conheço todas as pet-shops, as marcas de ração, as datas de vacina! Acordo mais cedo para cuidar e ficar com elas. Eu não achava que coubesse tanto amor em quatro patas.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Doe seu cabelo!!
Quem me conhece sempre me viu de cabelo curto. Num dia qualquer, inventei que teria de deixar o cabelo crescer para a formatura. E então acreditei que mulheres de cabelo comprido são mais bonitas... Morrendo de calor e com o cabelo dando cansaço, fui esperando... E formei!
Pensava: 'um dia corto'. 'Nããão, seu cabelo fica melhor grande'. Maldita ditaduta da beleza ocidental. Morando em Morada, quase morro de calor com o cabelo grande.
Até que descobri uma campanha do Hospital Mario Penna, que recolhe cabelos com mais de 12 cm para confecção de perucas para as pacientes com câncer (maldita ditadura da beleza ainda mais para elas...)
Combinado então: 20 cm de cabelo para vocês=) Com a ajuda da minha amiga Beatriz Martins, do bairro São Geraldo.
Quem quiser participar, deve cortar pelo menos 12cm de cabelo, deixar amarrado com uma gominha, seco, embrulhado em jornal e entregar pessoalmente ou via correio:
Departamento de Marketing: Samuel Dias
Rua Gentios 1420 Luxemburgo 30260080 Belo Horizonte
Obrigada Mario Penna!
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Outubro rosa
Outubro rosa ! Mês que o Ministério da Saúde quis chamar a atenção para a saúde da mulher, especialmente na prevenção do câncer de mama. Medidas assim são muito bacanas, as pacientes se sentiam valorizadas e iam às consultas pedir para realizar mamografia. O PSF ficou enfeitado de rosa, com cartazes explicativos. Fizemos também um dia de promoção da saúde, com medidas de pressão, cálculos de IMC ( para ver se o peso está adequado), vacinação, orientações sobre dengue e pedidos de mamografia. Despedindo de outubro, atendi ontem uma paciente invocada... Falava rápido, queixava de muita coisa sem dar muito peso a nada, agitada... Quando perguntei sobre a última vez que havia feito mamografia, ela respondeu: ‘Isso! Era isso que eu queria lembrar, doutora. A senhora sabe, eu fumo. Mas me cuido, preventivo e mamografia sempre faço. Quero o pedido de mamografia, fiz ano passado e o médico me disse que agora tenho de fazer de dois em dois anos. Quero fazer esse ano: o peito é meu e faço quantas mamografias quiser!’.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Vitaminas
Todos os dias atendo ao menos um paciente queixando fraqueza, desânimo, dificuldade para emagrecer... E em algum momento, ouço a frase: ‘Acho que estou precisando de vitaminas, a senhora pode me passar?’. Então, Fulano, o senhor faz exercício? Não, não tenho tempo, trabalho muito. O senhor se alimenta bem? Assim, como frituras, não como feijão, não gosto de verdura, adoro refrigerantes... Quantas horas o senhor dorme por noite? Umas seis, doutora. O senhor faz algo para se divertir? Quase nada, não tenho tempo. Como é sua relação em casa? Mais ou menos... Brigo muito com minha esposa, meu filho usa drogas... O senhor fuma, bebe? Bebo nos fins de semana. Fumar eu fumo, mas paieiro. E assim vão diversas consultas. Pessoas querendo responsabilizar algo pelo seu mal estar, acreditando que um remédio vai mudar sua vida. Que existe fórmula mágica para consertar maus hábitos. Que o médico tem poder para consertar tudo. E essa mentalidade é tão disseminada que é difícil um paciente iniciar exercício, buscar atividades de lazer, aceitar fazer terapia, melhorar seus hábitos alimentares... Espero não me cansar de pedir às pessoas que cuidem melhor de si... E não, ainda não passei vitaminas a ninguém.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Filme triste
Fico evitando falar sobre coisas tristes no blog- e na vida, mas a verdade é que todos os dias vejo realidades tristes. Não digo chocantes porque quase não me espanto mais- vocês imaginam as barbaridades que a gente acostumou a achar normal.
O caso da dona Fulana não é normal.
Conheci-a no dia em que comecei a trabalhar. 84 anos, mora sozinha, rotulada como 'paciente chata'. Cada profissional acha seus pacientes chatos por um motivo. Dona Fulana mora perto do posto e vai frequentemente, sem agendar, pedir consulta. Invariavelmente, queixa fraqueza, quer tomar soro e vitaminas. Trata mal toda a equipe, exceto a agente da sua área, a quem ela incomoda bastante, sempre reclamando a mesma coisa e solicitando visitas. Na primeira vez, atendi-a sem marcar, pelo fato de ser idosa, com queixa de fraqueza. Consulta complicada. Reclamava de tudo, dos nove filhos que não a ajudam, dos vizinhos, de Deus e do diabo. Coluna encurvada, magrinha, mas sem nada aparente que me preocupasse. Pedi alguns exames, marquei retorno e me recusei a fazer o soro que ela pediu.
Dona Fulana não veio no retorno. Alguns dias depois, mandou os exames para eu avaliar. Tudo normal!
Na outra semana, a Tati (agente) me pediu que fosse até a cada dela para examiná-la. Eu não podia naquele momento e pedi à Mariana que fosse. Mariana foi e voltou contrariada: 'Um dia dona Fulana vai morrer de verdade e não vamos saber, ela vive fazendo manha.'
Dona Fulana apareceu logo pedindo que eu a avaliasse, que estava fraca. Com o posto cheio e preguiça pelo seu histórico, orientei-a a buscar o hospital ou agendar uma consulta. Ela passou mais de uma hora brigando na recepção e falando sozinha: 'Aaaai que saudades do Doutor Paulo!'.
Hoje, Tati estava esgotada. 'Marcella, passei a manhã na casa da dona Fulana, não sei o que faço. Ela reclama com os vizinhos e eles vem me procurar. Outro dia uma vizinha dela veio na minha casa dez da noite.' Resolvi ligar para a assistência social.
Dona Fulana é um problema antigo no bairro. Brigou com os familiares e recusa cuidadores. Como se não bastasse, sustenta um filho drogadito. Segundo a assistente social, ela passa fome em casa e vem ao posto pedir soro para melhorar a fraqueza.
Fiquei extremamente triste ao saber disso. Não vejo ferramentas para ajudar que não seja contar com a assistência social. Vou percebendo que absurdos assim existem aos montes, a gente que vai se escondendo deles.
domingo, 13 de outubro de 2013
Nova amiga
Fico ligeiramente triste com uma mania dos pais quando estou perto de uma criança: 'olha, ela é médica, se você não ficar boazinha vai te dar injeção!'. Poxa vida, nunca dei injeção em criança... Nisso, os pequenos nem chegam perto de mim, e eu perco momentos incríveis. Fico imaginando que eles devam imaginar que eu carrego agulhas na bolsa e estou pronta para atacar a qualquer momento.
Tenho um amigo que ameaça sua sobrinha toda vez que os vejo. E como os vejo frequentemente, Luisa sempre manteve uma distância segura de mim.
Hoje fomos passear na roça desse amigo e Luisa estava. Com seus três anos e memória de criança, não sentiu perigo em mim. Como toda criança, veio contar seus casos, brincar, pedir a mão para atravessar...um doce! Fofa, quando quer alguma coisa, diz 'eu preciso', e ficava repetindo que precisava nadar na piscina (como ela chama a represa).
Ao final do dia, sua mãe prometeu que a levaria para tomar sorvete. Fizeram um acordo entre elas e Luisa veio falar comigo: 'Você precisa tomar banho para ir tomar sorvete.' Entendi que esse era o combinado entre ela e a mãe e que eu tive a honra de ser convidada. 'Ah, então também posso ir?' 'Pode, mas você tem de tomar banho antes de ir pra sorveteria.' 'Tudo bem, Luisa! Onde fica a sorveteria?'
Luisa pensou um pouco e respondeu: 'é onde tem um monte de sorvete!'
=)
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
'Boto ele no colo, prêle me ninar...'
Alguns pacientes aparecem fora de hora querendo consultar. Quando conseguimos, encaixamos o paciente. Numa dessas, apareceu seu Fulano,70 anos, raizeiro do maior conhecimento, querendo 'dar uma palavrinha comigo'. Como estava folgada, o convidei para entrar no consultório.
'Doutora, vim mostrar para a senhora um negoço que saiu do meu ouvido, não sei o que é.'
Abriu o bolso da camisa social e tirou um embrulhinho num saco. Desdobrou delicadamente o papel e me mostrou o ovni: uma bola de cera de alguns milímetros. Expliquei o que era e disse que podia jogar fora.
'Eu não...Vai que fizeram alguma macumba!' E foi me explicando que tinha de queimar a pedra para desfazer a macumba. Foi explicando, contando seus casos e rindo, quando parou no meio de uma frase e olhou para mim: 'Mas você emagreceu!! Tá comendo direito? Dormindo? Descansando?' E foi me dando bronca até balançar a cabeça 'Vocês médicos esquecem de se cuidar...tsc tsc'. Foi embora me fazendo jurar que eu iria tomar chá de quebra-pedra e visitá-lo qualquer dia desses.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Renovação de receitas
Antes de começar a trabalhar, tive uma conversa com a enfermeira do PSF sobre como eu gostaria de trabalhar. Não podia nem queria impor nada, mas uma coisa era fundamental: não queria renovar receitas sem ver o paciente. Mariana concordou de imediato e acordamos assim: seriam agendadas consultas sempre que o paciente precisasse de medicação, exceto nos casos de pacientes em acompanhamento por outros médicos.
Segundo o Conselho Regional de Medicina, o médico não pode renovar receita sem examinar o paciente, embora o CRM também admita que tal definição nem sempre consegue ser cumprida, a demanda nos PSFs costuma ser maior que os médicos conseguem cumprir. Na realidade, o mais comum é: os pacientes não tem paciência para aguardar as consultas e os médicos não tem paciência com os pacientes. Mais simples copiar um papel que cuidar de uma pessoa.
Desafio à frente e com o apoio dos meus colegas, fomos! Os pacientes ficam irritados sempre que descobrem que não vão mais poder ir no posto apenas duas vezes ao ano 'buscar' suas medicações. Ritinha e Mariana têm sofrido com a insistência dos pacientes: 'não pode, tem de agendar...' 'Agora têm disso?!?'
Muitas vezes fiquei com o coração apertado de ver meus pacientes nervosos e meus colegas de trabalho sendo pressionados. Pensei em mudar de idéia, mas... A cada consulta 'apenas' para renovar receitas antigas, vou descobrindo pequenos e grandes problemas: pacientes descompensados, dependência de medicação para dormir, alcoolismo, e claro, doenças que não apareciam simplesmente porque ninguém perguntou. Obrigada pelo apoio,colegas!!
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Cão de rua
Tô querendo um cachorro. Mesmo trabalhando muito e sendo muito bem acolhida, sinto um apertinho quando chego em casa e sou eu comigo. Cuido da minha horta e das minhas coisas, mas falta um cachorro. Avisei muita gente que tô querendo um.
Ontem ao voltar do almoço, encontrei esse Bob Marley na porta do PSF. Disse à Mariana que se ele ainda estivesse na porta quando eu saísse, iria pegar. Imundo,manso, com mais carrapicho que pêlo, ficou acomodado tomando sol na nossa porta. Mariana duvidou e no meio da tarde me disse: 'Marcella, cê tá perdida, seu cachorro continua lá.'
E continuou... Mariana morria de rir e me arrumou uma caixa e carona. Deixei todos meus colegas de trabalho morrendo de rir e trouxe o dog de carro.
Comecei o banho, pacientemente. Escorreu barro puro quando o molhei. Fui adulando, tirando os carrapichos e carrapatos aos poucos... Gastei duas horas até resolver que estava bom. E ainda sobraram uns carrapichos. Ele paciente, manso, magrinho, até tremeu de frio,sem reclamar. Comeu da ração mais barata como se fosse filé.
Hoje pela manhã, fez a maior festa quando acordei e abri a porta pra ele. Passei o dia pensando se o encontraria quando chegasse do serviço, não quis prendê-lo porque é um cão de rua, adulto, acostumado com espaço. E não dei nome porque não sabia se seria meu mesmo.
Pois é, o dog fugiu... Pelo menos o deixei limpinho e alimentado! E caso alguém o encontre, cuida bem dele!
*****Um dia depois, o dog apareceu no PSF, disse seu oi canino e saiu para brincar de novo!****
terça-feira, 24 de setembro de 2013
No hospital
Mesmo plantões de urgências rendem risadas - e choros...
Atendendo um paciente psiquiátrico...
-Quantos anos o senhor tem?
Desafiador, respondeu: -Acho que tenho idade para ser seu pai.
Eu na paciência que uma consulta de madrugada traz: 'E eu acho que o senhor não é.'
__________________________________________________________________________________________________
Em outra consulta, conduzi o paciente para dentro da sala e me apresentei:
"Boa noite, meu nome é Marcella, sou a médica de plantão."
"Boa noite, meu nome é Fulano, sou o doente."
=)
domingo, 22 de setembro de 2013
Quando o paciente diz não
Atendendo idosos, o mais comum é que encontrar pacientes que apresentem alguma doença crônica. Para fazer controle, sempre peço aos meus pacientes que tragam seus exames antigos para comparação.
Numa dessas consultas, atendi o Seu Fulano. 80 anos com vigor de 50, alto e forte como um touro, veio até mim para controle de hipertensão. Pressão quase nos valores normais, pedi que voltasse com toooodos exames antigos. Voltou uma semana depois, no melhor humor que existe. Fui passando os exames, papéis amarelados desde 1996. Quase tudo normal, nada que me preocupasse, até que vi um exame de 2008, de próstata. A avaliação da próstata pelo exame de sangue é controversa, porque o exame pode vir normal mesmo em casos de câncer. Porém, seu Fulano tinha o exame aumentado em quase 40 vezes o limite do normal! Fui questionar...
-E esse exame de próstata do senhor, tem outros?
-Ah, doutora, esse exame eu não faço mais não.
-Mas porquê?
-Olha, foi o seguinte: quiseram me operar de próstata uns cinco anos atrás, eu me preparei e tudo, fiz os exames pra cirurgia. Mas um dia eu estava andando na rua e Deus me disse que se eu fosse operar, não voltava mais. Larguei isso de lado e tô aqui até hoje.
Continuei a consulta sem questionar, é muito interessante quando o paciente recusa um tratamento, independente do motivo. Nesse caso, seu Fulano foi tão incisivo que não tocarei mais no assunto. O paciente merece ser respeitado em suas escolhas. Claro, devo orientar, explicar os riscos, mas quem deve direcionar o cuidado é o paciente, de acordo com sua realidade, suas crenças e suas expectativas.
Presenciei no HC alguns pacientes recusando quimioterapia, recusando cirurgias, recusando atendimento. Saude é um estado de bem-estar e não apenas a ausência de doença. Quem sou eu para contrariar os 80 anos de vida e a fé de Seu Fulano?
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Visita ilustre
Os dias vão se passando e a gente diminui a capacidade de se encantar com os pequenos milagres de cada dia... Hoje foi um dia cheio, tivemos um feriado e eu sabia que seriam muitos atendimentos. Apesar de atendermos com hora marcada, o saguão do posto ficou cheio, e o balcão com uma pilha de prontuários esperando por mim.
Antes de chamar o paciente, eu reviso os atendimentos, vejo as pendências da última consulta e me preparo mentalmente para as prioridades de cada caso. Costumo ter uma cabeça ruim, mas sempre lembro de cada paciente ao ver o prontuário.
Num dos atendimentos, recebi a visita ilustre de uma paciente com mobilidade reduzida! Fiz uma visita a ela há algum tempo, ajustei a medicação e pedi exames. A paciente era idosa, tinha sequela de derrame e dificuldade de andar, mas resolveu ir com a filha levar os resultados para me mostrar! Cheirosinha, roupa colorida, sapatilha bordada, unha feita e sorriso fácil... Em momentos assim eu me sinto valorizada, estimulada, e percebo o quanto é delicioso ser médica!
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Ah...o amor!
Atendi hoje uma paciente que acompanho desde o ano passado. Obesa, com dificuldade de andar, diabetes e pressão alta. Paciente complicada, quase 80 anos, deu trabalho para mim e a Lidiane porque não queria tomar as medicações, não queria viver. Viúva e sem filhos, sofria saudades há três anos. Hoje apareceu de cabelo pintado, roupa colorida e brincos. Fiz a consulta normalmente e a elogiei. 'Mas a senhora tá muito bonita!' Sorriu com os olhos, boca e alma: 'Tô namorando, doutora! E ele é lindo como uma gota de orvalho numa folha verde.' Obrigada por essa ternurinha...
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Perolinhas
Ostra feliz não faz pérola, como diz Rubem Alves. Trabalhar no PSF é complicado, mas nos rende caaada história! Algumas que marcaram :
"-O senhor tem algum outro problema de saúde?
-Não fia, sempre fui sadio. Agora que arranjei essa macacoada toda."
"-Doutora, quero fazer um ultrassom do estambo. Me pediram endoscopia, mas esse exame eu num faço.
-Dona Fulana, não existe ultrassom do estômago, a gente faz é endoscopia mesmo.
-Aaaah, inziste sim porque minha vizinha fez.
Depois do exame, percebi que a paciente tinha algumas alterações abdominais e eu realmente teria de pedir ultrassom.
-Oh Dona Fulana, vamos fazer ultrassom da barriga toda que a gente aproveita e vê o estômago!"
"No grupo de hipertensos, eu, Mariana e Deise nos dividimos para medir a pressão dos pacientes. Dispenso um paciente e chamo a Dona Fulana.
-Não me sento na mesma cadeira que Seu Fulano.
-Mas por quê, Dona Fulana?
-Seu fulano é morfético.
Eu que não tinha a menor idéia do que se tratava e tinha pedido a outros dez pacientes que se sentassem ali, respondi:
-Pode se sentar, Dona Fulana, que isso não se pega assim." Depois descobri que morfético é o paciente com hanseniase. E realmente não se pega assim.
"-Dona Fulana, a tosse da senhora é seca?
-Nããão, tô despeitorando muito!"
Vou dividindo essas perolinhas com que Dona Fulana e Seu Fulano me presenteiam...
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Sô Ozoro
Estava atendendo a um paciente chamado Osório. Uma figura: baixo, bigodudo, sorrisão simples. Veio aos quase setenta anos para investigar uma hipertensão e tomar os remédios que "a senhora acordar comigo". Consulta deliciosa, entremeada de pequenos casos de quem viveu 'tudo quanto há'. Eu ia conversando com ele e pensando por qual motivo o nome dele me soava tão familiar.
Sô Ozoro pra todo lado... De onde conheço esse nome?
Ao final do exame, sento Sô Ozoro na maca: 'Aaaaah, o nome do senhor é igual ao do moço que escreveu o hino brasileiro!'. Sô Ozoro me olha de lado e sorri, também de lado: 'Pois é, dotôra. Quando eu era menino, na escola, ouvia o hino, pensava que era pra mim e ficava tooodo contente.' Fechou os olhos e gargalhou. Também gargalhei, pensando numa criança de bigode ouvindo o Hino Nacional.
(O paciente me autorizou a contar essa história.)
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Nota vermelha
Breve preâmbulo: Diz-se que batimentos do coração são regulares ou irregulares. Quando são irregulares, o paciente tem arritmia. Paciente hipertensa retornou para me mostrar resultado de exames. Me entrega um envelope lacrado, sinal de que eu era a primeira pessoa a ver esses exames. Abri o envelope, analisei os exames um por um, fui anotando os resultados e devolvendo à paciente. Por sua vez, ela recebia os exames , colocava óculos e também os lia, aguardando que eu os interpretasse. -Dona Fulana, os exames da senhora estão ótimos! (e fui tranqüilizando sobre o resultado de cada um). -Peraí doutora... Olha aqui esse eletro... (eletrocardiograma) Pensei que tivesse deixado passar algo e peguei o papel que ela me estendia. -Normal. Não precisa preocupar. Ela franziu a sobrancelha, preocupadíssima: ‘Normal não, doutora, olha de novo, aqui diz RITMO CARDIACO REGULAR’. -Qual o problema, dona Fulana? -Uai doutora... Eu me cuido tão bem... Esperava um ritmo cardíaco bom ou ótimo! (Como nunca pensei nisso?!)
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Dose dupla
Semana passada, atendi uma mulher de trinta e poucos anos. 'Boa tarde, dona Fulana, como posso ajudar a senhora?' 'Vim consultar porque estou grávida.' Eu não me contenho nessas horas: 'Mas que coisa boa!!'. Dona Fulana abaixou a cabeça : 'Coisa boa? Só se for para você.' Pedi desculpas e ela me explicou melhor que tem dois filhos grandes e não pretendia engravidar de novo, mas que se acostumaria. Examinei, orientei, pedi os exames de pré-natal e marquei retorno para o mês seguinte. Decidi que de uma outra vez, perguntaria à futura mãe antes de parabenizar. ... Ontem era dia do grupo de gestantes. A dona Fulana veio falar comigo com os olhos radiantes: 'Doutora, tenho uma surpresa pra senhora.' Aqui em Morada não existe surpresa, eu sabia do que se tratava e pedi para ela entrar na minha sala. 'São gêmeos!!! Eu não tô querendo acreditar, não tem ninguém na família, meu marido ficou tão satisfeito!!!' E exclamava, e sorria, e agitava as mãos. Me pediu para conferir o exame e disse que vai acreditar quando houver outro exame confirmando. De repente, parou de falar como se preparasse uma conclusão muito sábia: 'Agora que são dois estou feliz.' Então tudo bem=) Parabéns!!
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Primeiro plantão
Como todo médico que trabalha no interior, fui convidada a ajudar na escala de plantões do Hospital São Sebastião. Alguns médicos tem dado plantões seguidos e tem ficado muito sobrecarregados. Concordei em fazer o plantão do último domingo. Aceitei com um medo enorme dos casos que poderiam surgir, somados a minha inexperiência. Combinei com um dos médicos daqui que ligaria para ele no caso de qualquer dificuldade, e deixei meus amigos de faculdade avisados a me ajudar via celular também.
Cheguei ao hospital e fui recebida por uma equipe mais que conhecida e querida: Jordania, Aparecida, Viviane, Pretinha... Delícia trabalhar assim! Os pacientes não pararam de chegar, mas casos sem maior gravidade, que pude manejar tranquila.
Perto das sete da noite, eu pensava se daria tempo de assistir a missa quando me perguntaram quem viria assumir o plantão noturno. 'Hmm, não sei!'. Acabei descobrindo que o plantão noturno também era meu! Que susto! Eu tinha de estar no PSF às sete, não havia levado roupa para trocar nem lanches. Tudo bem, se era assim não adiantava eu ficar achando ruim. Booora para mais doze horas com outra equipe, também muito especial: Dalcira, Izilene e Helinea. Plantão noturno movimentado, com direito a gestante em trabalho de parto prematuro e mãe de paciente tratando equipe com falta de respeito.
No meio da noite, fui chamada para atender uma paciente com dor de pedra na vesicula. Fizemos um Buscopan. Em minutos, a paciente estava sem dor e feliz. Me abraçou com tanto carinho... Urgência tem sua graça. No PSF ninguém sai tão feliz da consulta quando controlo uma hipertensão.
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Dia de visita
Semana cheia no PSF. Aos poucos, as coisas vão se ajeitando, as ‘novas’ caras vão ficando conhecidas e começo a criar uma rotina. Hoje foi dia de visita domiciliar.
A visita é uma ferramenta do Programa de Saúde da Família para dar assistência aos pacientes que não conseguem se deslocar até o Centro de Saúde. Na maior parte, são pacientes idosos acamados ou com mobilidade reduzida. Para o médico, é uma oportunidade única de conhecer as condições de vida de seus pacientes.
Como fiz visitas durante a faculdade, sabia que seria um momento delicioso para mim, de maior intimidade com os pacientes e suas famílias. Começamos a tarde errando a casa e pedindo desculpas... Pude observar o quanto são comuns as casas de quintal de terra batida e sem acabamento. Meus pacientes, para minha grande alegria, eram muito bem cuidados, independentemente das condições econômicas.
Numa das casas, fui lavar as mãos e descobri um banheiro caprichosamente adaptado à paciente. A casa era simples, ainda em construção, mas fizeram o vaso do banheiro mais alto, forrado, e com barras laterais para facilitar para a paciente. Fiquei encantada! Tão raro ver pessoas se lembrando de adaptar a casa para o idoso... Preservar a independência do idoso é gratificante!
Em outra casa, tive outro momento delicioso. Ao examinar o paciente, um dos passos é auscultar os batimentos do coração. Esse processo é feito em quatro pontos: um à direita e três à esquerda, no tórax. Avisei a uma paciente de 79 anos que eu ia ‘escutar’ o coração dela, e automaticamente coloquei meu esteto no lado direito. Ela riu inocentemente e abanou a cabeça: ‘Mas filha... o coração é do outro lado!’.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Voltando pra Morada
Pediram-me um diário da minha vida aqui em Morada. Deliciosamente, diversos amigos vêm me cobrado que eu escreva no blog. Os últimos meses de faculdade ocuparam meus pensamentos de tal forma que nem cartão de aniversário escrevi. Agora já instalada e com todo o tempo que uma cidade pequena oferece, posso escrever. Quando me formei, o parabéns mais bonito veio de um amigo: ‘Obrigado por se formar, estamos precisando de médicos como você’. Agradeci em seco, julgando o elogio o mais superlativo que alguém poderia oferecer. Chegando aqui, ouvi agradecimentos por ter vindo e novamente abaixo a cabeça. Saber que as pessoas pensam assim de você é uma grande responsabilidade. Encontrei Morada Nova como a deixei, seis meses atrás. A sensação agora é outra. Lembro de uma frase do Mandela: ‘Nada como voltar a um lugar que continua igual para perceber o quanto mudamos’. Não adquiri nenhum superpoder, não! De repente, não sinto mais a leveza de ser estudante, de poder gastar a tarde na praça tomando um picolé de milho, de sujar o pé de terra, de curtir o arrocha daqui, de rir alto, de gastar vinte minutos de uma consulta discutindo o quê a pessoa planta em seu quintal. As pessoas me tratam de forma mais formal e em seus olhares, vejo curiosidade, expectativa. Gostaria de saber o que cada um pensa quando me deseja boa sorte... Amigos me param na rua ‘não acreditei que você vinha!’ Estou muito feliz. Voltando para casa, de certa maneira.
Assinar:
Postagens (Atom)















