segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Serviço de escrever

Semana passada recebi visitas que encheram minha casa de luz e alegria. Vieram minha irmã, uma amiga e um primo. Meu primo quer ser médico e veio para acompanhar um pouquinho da vida de médico do interior. Levei-o para conhecer alguns locais e atividades. Um local foi a Vila Vicentina, que é nosso asilo. Conversamos um pouco com cada um dos avôs e acabamos prolongando nossa visita ao Vô Geraldin, uma fofura de 93 anos. Nos contava um pouco sobre a vida no asilo, o que gosta de comer, seus casos... Quando percebi, era hora de voltar ao PSF. "Seu Geraldin, o senhor me dê licença que preciso voltar ao servico." "Espera! A senhora trabalha com serviço braçal ou serviço de escrever? Porque serviço braçal é muito ruim,filha..." Fiquei surpresa com a praticidade da divisão de profissões: "Serviço de escrever mesmo." "E me diz uma coisa: a senhora ganha bem?" "Hmm, não falta nada lá em casa!" "Mais de um salário?" "Mais, seu Geraldin..." Satisfeito com a resposta, se despediu: "Assim que é bom, minha filha. Que Nosso Senhor te acompanhe!"

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Janeirite

Acompanho uma paciente desde agosto. Idosinha, mãe e avó, quase 70 anos, ainda trabalha para ajudar na renda familiar. Diversos pequenos problemas de saúde , desde a primeira consulta vem me queixando cansaço. Após investigar o contexto familiar, investiguei problemas de coração. Não era. Investiguei anemia e tireóide, não era. Investiguei pulmão, não era. Fui mexer nas medicações em uso, quando a paciente sabiamente me sugeriu um diagnóstico: 'Ah nem doutora. Fiz tanto exame. Será que não é janeirite?'. Estranhei: 'O quê, dona Fulana?'. 'A senhora sabe... Tenho janeiros demais... E janeirite não tem tratamento!' Rimos juntas...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Carinho é bom e todo mundo gosta

Sempre ouço o Tutti Maravilha dizer na rádio: "carinho é bom e todo mundo gosta". Não sei se chego a dar metade do carinho que recebo. Hoje foi um dia cheeeio de carinho. Logo de manhã, um paciente veio me trazer duas tilápias . Sorridente, ficou contrariado pois tinha as conseguido frescas na semana passada,mas eu estava de férias e ele não pôde entregar. Comida para mim é o presente mais carinhoso que existe! Muiiiito obrigada! Um pouco mais tarde, atendi um adolescente acompanhado pela mãe. Ao final da consulta, orientei o paciente sobre a conduta e chegou aquele momento: 'liberado, qualquer coisas vocês voltam.' A senhora me abriu um sorriso sincero e estendeu a mão : 'parabéns!'. Apertei a mão estendida, agradeci e estranhei: 'por que estou ganhando parabéns'? Não é dia do médico, não é meu aniversário ,não tô grávida, não conquistei nada... Resolvi perguntar. Simples, a senhora me disse: 'Porque você é muito nova e é médica. Deve ter se esforçado e estudado muito para conseguir.' Me emocionei. Não apenas pela singeleza do gesto, mas por ser a primeira vez que minha -pouca- idade foi motivo de reconhecimento e não de desconfiança. E para terminar esse delicioso dia, minhas cachorras começaram a me ensinar a passear hoje...