quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Vendendo balões

Eu devia escrever algo sobre minhas decepções com o SUS e com o ser humano (inclusive eu), mas não criei o blog pra isso. Contar um casinho. Atender crianças é tarefa árdua. Não apenas quando são muito pequenos e não sabem falar o que sentem, é sempre um desafio lidar com os pais e avós, que por tanto amor e cuidado acabam por vezes dificultando o trabalho do profissional de saúde. Eu pensei em ser pediatra algumas vezes ao longo da faculdade. Desisti depois da segunda ou terceira mãe ansiosa, querendo antibiótico ou pedido de exames pro seu filho ‘amuadinho’. As crianças são seres mágicos. Um de seus super poderes é estar prostrado em casa e ao chegar no hospital, melhorar de uma vez. ‘Mas doutor, quando eu chegar em casa a febre vai voltar...’. Pode conferir com qualquer mãe, a maior parte das crianças melhora antes de chegar no hospital. Enfim, aqui temos (agradeço todos os dias por isso) a Dra. Tânia, pediatra, e eu quase não atendo crianças. Numa semana em que ela estava de férias, me surge o pequeno Pedro, de quatro anos. Lindo de viver, Pedro dispensou a ajuda da mãe para me contar tudo que sentia. Uma dorzinha no meio da barriga, nada a ver com alimentação, sem problemas para fazer cocô. Deixou ser examinado sem reclamar, aceitando a consulta como um rapaz. Fiquei encantada e o elogiei muito! Ao sair, ganhei um aperto de mão desajeitado. Antes de passar pela porta, Pedro ainda virou: ‘Aqui você também vende balão?’. Dando trela para o moço: ‘Ih, Pedro, eu tinha mas acabou ontem. Confere na padaria.’Assentiu: ‘Vamos,mãe?’ Saiu levando a mãe gentilmente pela mão.

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