quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Filme triste
Fico evitando falar sobre coisas tristes no blog- e na vida, mas a verdade é que todos os dias vejo realidades tristes. Não digo chocantes porque quase não me espanto mais- vocês imaginam as barbaridades que a gente acostumou a achar normal.
O caso da dona Fulana não é normal.
Conheci-a no dia em que comecei a trabalhar. 84 anos, mora sozinha, rotulada como 'paciente chata'. Cada profissional acha seus pacientes chatos por um motivo. Dona Fulana mora perto do posto e vai frequentemente, sem agendar, pedir consulta. Invariavelmente, queixa fraqueza, quer tomar soro e vitaminas. Trata mal toda a equipe, exceto a agente da sua área, a quem ela incomoda bastante, sempre reclamando a mesma coisa e solicitando visitas. Na primeira vez, atendi-a sem marcar, pelo fato de ser idosa, com queixa de fraqueza. Consulta complicada. Reclamava de tudo, dos nove filhos que não a ajudam, dos vizinhos, de Deus e do diabo. Coluna encurvada, magrinha, mas sem nada aparente que me preocupasse. Pedi alguns exames, marquei retorno e me recusei a fazer o soro que ela pediu.
Dona Fulana não veio no retorno. Alguns dias depois, mandou os exames para eu avaliar. Tudo normal!
Na outra semana, a Tati (agente) me pediu que fosse até a cada dela para examiná-la. Eu não podia naquele momento e pedi à Mariana que fosse. Mariana foi e voltou contrariada: 'Um dia dona Fulana vai morrer de verdade e não vamos saber, ela vive fazendo manha.'
Dona Fulana apareceu logo pedindo que eu a avaliasse, que estava fraca. Com o posto cheio e preguiça pelo seu histórico, orientei-a a buscar o hospital ou agendar uma consulta. Ela passou mais de uma hora brigando na recepção e falando sozinha: 'Aaaai que saudades do Doutor Paulo!'.
Hoje, Tati estava esgotada. 'Marcella, passei a manhã na casa da dona Fulana, não sei o que faço. Ela reclama com os vizinhos e eles vem me procurar. Outro dia uma vizinha dela veio na minha casa dez da noite.' Resolvi ligar para a assistência social.
Dona Fulana é um problema antigo no bairro. Brigou com os familiares e recusa cuidadores. Como se não bastasse, sustenta um filho drogadito. Segundo a assistente social, ela passa fome em casa e vem ao posto pedir soro para melhorar a fraqueza.
Fiquei extremamente triste ao saber disso. Não vejo ferramentas para ajudar que não seja contar com a assistência social. Vou percebendo que absurdos assim existem aos montes, a gente que vai se escondendo deles.
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